
APELO EM FAVOR DE CESARE BATTISTI
(Rui Martins)
Cesare Battisti, no Brasil, e Marina Petrella, na França, correm o risco de apodrecerem numa prisão italiana. Existe uma atualidade européia envolvendo o caso Cesare Battisti – começou, há alguns dias, a projeção do filme alemão Der Baader Meinhof Komplex, narrando em duas horas e meia as ações da Fração Armada Vermelha, RAF, na Alemanha, que antecederam as ações da Ação Direta italiana, movimentos da extrema-esquerda que adotaram métodos terroristas. Andreas Baader, Ulrike Meinhof e Gudrun Ensslin tipificavam na Alemanha dos anos 70, um movimento de rebeldes com uma causa, diferente dos rebeldes sem causa, do hollywoodiano James Dean sobre uma juventude desnorteada do pós-guerra. Não se pode também esquecer que a vitória de Fidel Castro contra o ditador cubano Fulgencio Batista, contando com um pequeno grupo de jovens armados e decididos a jogar sua vida na aventura, marcou os anos 60. E que o surgimento, nesse grupo de libertadores, do médico argentino Che Guevara, transformado na figura mítica de um revolucionário, iria fazer a cabeça de muitos jovens decididos a mudar o mundo, para evitar que um novo nazismo ou fascismo aparecesse. Em favor de um mundo mais solidário, mais justo, sem desigualdades sociais e de oportunidade iguais para todos. Todos podiam sonhar e alguns sonhavam à moda dos cavaleiros andantes. Nos anos 60 soprava um vento violento, pregava-se a violência, acreditava-se que com as armas era possível se mudar o mundo, esquecendo-se que a violência engendra a violência. Nosso próprio cardeal “vermelho”, Helder Cãmara, de uma Igreja não mais existente, frágil e franzino denunciava a violência da fome e da miséria. Salinas com a Hora de los Hornos apelava para a violência contra o imperialismo estadunidense. Andreas, Ulrike, Gudrun eram crianças filhas da guerra, primeira geração depois da catástrofe de Hitler, assustadas com a ocupação americana que se mostrava compatível com sobreviventes do nazismo e temendo uma forma de neofascismo, que se deveria combater a todo custo. Queriam uma sociedade mais humana, porém se perderam no uso de métodos desumanos, que os levaram à ruína e à própria morte. O mesmo ocorreu na Itália com a Ação Direta e com outros grupúsculos da extrema-esquerda. Mas o tempo passou, as ilusões se desfizeram, surgiu também a consciência de que as reformas sociais, para poderem perdurar e serem justas, precisam ser obtidas pacificamente. Mas muitos desses jovens envolvidos na espiral da violência por um idealismo mal orientado morreram ou aprodreceram ou estão apodrecendo na prisão, enquanto seus temores premunitórios, infelizmente, parecem tomar corpo e sorrateiramente ameaçam a sociedade. As novas tecnologias, os novos valores não favorecem o ideal de um mundo mais justo. Ao contrário, fazem antever uma uniformização do pensamento, numa sociedade onisciente e facilmente controlável, governada por multinacionais desumanizadas. Cesare Battisti, o jovem militante de um movimento italiano inspirado pela violência da época, não existe mais e, na sua errança de fugitivo, já pagou à sociedade seus excessos e, nem é certo, que tenha cometido crimes de sangue nos seus desvarios revolucionários. O Cesare Battisti que pede asilo no Brasil é, como tantos do próprio governo e do parlamento, um senhor casado, contra a violência, com duas filhas adolescentes que precisam de seu apoio. Extraditar Cesare Battisti para ir apodrecer numa prisão italiana não tem nenhum sentido. A prisão tem um lado punitivo mas seu objetivo principal seria o de reeducar para a integração social, ora se punição era necessária para Battisti, sua vida tormentosa já o fez, mas de reeducação ela não precisa. Bastará ser libertado para voltar a escrever e a retomar uma vida normal, desta vez como um cidadão no Brasil, que confirmará ser um país justo. Na França, uma mulher, Maria Petrella, mãe de duas filhas, vive o mesmo drama de Battisti e está se deixando morrer na prisão. O que a Itália de Berlusconi ou a França de Sarkozy ganham com a caça desses dois seres ? Esperemos que pelo menos o Brasil, que nada deve nem à França e nem à Itália, deixe Battisti refazer sua vida, com sua mulher e suas filhas, reconhecendo estarem prescritas todas as acusações contra ele e incluindo seu caso na anistia geral decretada em 1985.
Rui Martins
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